Uma vida de luta pelos Afrodescendentes
Ao receber o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia, em 2000, Abdias Nascimento deu uma mostra de seu temperamento aguerrido, ressaltando que se encontrava numa situação bastante contraditória. Afirmou em seu discurso, durante a solenidade, que estava recebendo um título de doutor de uma instituição pertencente ao sistema de ensino que ele há décadas questionava e contestava por marginalizar, humilhar, desprezar e discriminar o povo afrodescendente. E completou afirmando que continuaria contestando.
Esse era o espírito de luta de Abdias, incansável e imprescindível. E como bem definiu o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, “tratava-se de um negro que se apresentava como tal, que não se envergonhava de sê-lo e que esfregava a cor na cara de todo mundo”. Aos 15 anos, Abdias Nascimento alista-se no Exército e deixa sua cidade natal, Franca (SP) para morar em São Paulo. Nessa mesma época ingressa na Frente Negra Brasileira, lutando contra a discriminação racial em estabelecimentos comerciais, e marca o início de seu engajamento no movimento negro nacional.
Apesar da formação em economia pela Universidade do Rio de Janeiro, funda em 1944 o Teatro Experimental Negro (TEN) que, além das atividades dramatúrgicas, organizou a Convenção Nacional do Negro. Como resultado desse evento, foi elaborada uma proposta à Assembléia Nacional Constituinte de incluir um dispositivo constitucional definindo a discriminação racial como crime de lesa-Pátria. O projeto, apresentado pelo Senador Hamilton Nogueira, não é aprovado. O TEN se manteve ativo até 1968 quando o regime militar intensificou a censura e a perseguição política. Nesse ano, Abdias exilou-se nos Estados Unidos onde lecionou como professor universitário.
Com a redemocratização, retornou ao Brasil e no início da década de 80 assumiu uma cadeira na Câmara dos Deputados onde manteve como foco a discriminação racial. Propôs o estabelecimento do feriado nacional no dia 20 de novembro, data comemorativa pela morte de Zumbi dos Palmares, e apresentou ainda projeto de lei que criava a cota de 20% de vagas para mulheres negras e o mesmo percentual para homens negros na seleção de candidatos ao serviço público.
Embora não tenha participado da Assembleia Nacional Constituinte, as propostas de Abdias tiveram acolhida nas discussões dos parlamentares e refletiram nas decisões para elaboração da nova Constituição de 1988. O direito brasileiro, por exemplo, passou a contemplar a natureza pluricultural e multiétnica do país e o racismo passou a ser crime inafiançável. As terras dos remanescentes de Quilombos passaram a ser demarcadas. Abdias foi ainda um dos responsáveis pela criação da Comissão do Centenário da Abolição, também em 1988, que viria a ser o embrião da Fundação Palmares.
Abdias Nascimento teve uma história de vida como poucos, marcada por importantes iniciativas nas várias áreas onde atuava. Escritor, economista, artista plástico, poeta e dramaturgo foram algumas das atividades que manteve ao longo de sua existência.
Sua luta na defesa dos direitos dos afrodescendentes teve reconhecimento nacional e internacional, sendo contemplado com vários prêmios, dentre eles o Prêmio Comemorativo das Nações Unidas por Serviços Relevantes em Direitos Humanos e o Prêmio UNESCO, categoria Direitos Humanos e Cultura de Paz. Com sua morte, no último dia 26, o movimento pela igualdade racial perde um grande militante, mas o legado de seu ideal, de sua biografia, de seu ativismo ficarão para sempre.





