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30 anos sem Glauber Rocha

Durante as filmagens de Vento do Leste, Jean Luc Godard coloca Glauber Rocha em uma encruzilhada, com os braços abertos, apontando para direções opostas, enquanto canta Divino e Maravilhoso, de Caetano Veloso. Uma mulher grávida lhe pergunta: “você poderia me dizer o caminho do cinema político?” E ele, como resposta à pergunta, aponta para a direita e diz que neste lado está o cinema desconhecido, da aventura. Em seguida aponta para a esquerda e fala que nessa direção está o cinema do terceiro mundo, perigoso, divino e maravilhoso.

 

Essa cena pode ser vista como uma pequena mostra do cinema de Glauber: o foco político; a convivência de opostos, que o aproximou da estética barroca; a carnavalização; a exaltação da cultura brasileira; entre vários outros aspectos que pontuam a marcante obra deixada pelo diretor. Um dos maiores cineastas brasileiros de todos os tempos e talvez o de maior projeção internacional, Glauber deixou uma filmografia que permanece atual até os dias de hoje. Seus filmes, no entanto, não alcançaram o grande público como ele tanto sonhou.

Inovador e revolucionário, Glauber encabeçou o movimento do Cinema Novo que quebrava com a estética comercial que vigorava na época e que era parâmetro inclusive para as produções nacionais. Mas, as dificuldades constantes de produção e distribuição levaram o grupo do Cinema Novo a criar a Difilm, produtora independente que tinha como objetivo viabilizar os filmes de seus sócios.

O sonho da produção independente, no entanto, durou pouco, apesar da importância dessa empreitada com as transformações que trouxe para a forma de se produzir filmes no Brasil. Os jovens diretores introduziram no país as câmeras europeias, bem mais leves que as usadas na época e que permitiam cenas mais livres com a câmera na mão. Essa nova forma de filmar foi também a responsável por uma das mais famosas frases de Glauber para definir seu cinema: “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” era a fórmula que sintetizava suas produções. As cenas em estúdio também deram lugar a locações nas ruas e pessoas que nunca haviam atuado começaram a integrar o elenco dessas produções.

Apesar de toda a revolução que fez no cinema nacional, Glauber enfrentava também problemas com a crítica que colaborava para reduzir ainda mais o público que assistia a seus filmes. Enquanto não tinha por aqui o merecido reconhecimento, no exterior a admiração, elogios e prêmios eram dados ao seu trabalho.

Com “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” Glauber ganhou a Palma de Ouro em Cannes de melhor direção, em 1969. Nos Estados Unidos, Glauber tem entre seus admiradores o diretor Martin Scorsese (Táxi Driver, Touro Indomável, A Cor do Dinheiro, entre outros) que, numa entrevista à Revista Cult, revelou ter passado cenas de Antonio das Mortes para o elenco de Gangues de Nova Yorque, de 2002, como meio de preparação dos atores.  

Glauber nasceu em Vitória da Conquista, em 1939 e aos 13 anos iniciava suas primeiras experiências com cinema, quando começa a participar como crítico do programa Cinema em Close Up, da Rádio Sociedade da Bahia. Em 1956, funda, junto com outros jovens cineastas, a Cooperativa Cinematográfica Yemanjá. No ano seguinte, começa sua produção jornalística e produz seu primeiro curta “Pátio”. Em 1961, inicia sua carreira como diretor de longas metragens filmando Barravento. Glauber confiou a sua mãe, D. Lúcia Rocha, a guarda de toda sua obra e graças a ela seus filmes foram recuperados e estão sendo preservados em local adequado.

Sua genialidade, espírito de luta e defensor obstinado da cultura brasileira, foi o que nos levou a não deixar passar em branco essa data. Uma data que nos divide, entre a perda de um grande artista e a comemoração de termos uma obra inigualável deixada por ele e que certamente será reverenciada infinitamente por todas as gerações de brasileiros.